Eu sei, mas não devia – por Marina Colasanti

29/04/18 | postado por: Virginia Pinheiro

 

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(1972)


Marina Colasanti

O texto acima foi extraído do livro “Eu sei, mas não devia”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

 

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22 Comentários:Eu sei, mas não devia – por Marina Colasanti
  1. anamaria

    Bom dia! Não concordo, gosto da Maria Colasanti, sei da importância dos textos dela, mas acho esse muito pessimista, coloca todos num mesmo “saco”. Não penso assim, não vivo assim e sou rodeada de pessoas positivas , que levantam, sacodem a poeira e dão a volta por cima.
    Precisamos de textos que nos animam !!!!! Infelizmente exemplos negativos aparecem sempre mais que os positivos; mas podem ter certeza…..eles existem.
    Um excelente domingo para todas vcs!!!

    • MCelia

      Ola Ana Maria , que bom que você consegue viver assim rodeadas de pessoas positivas e com energias positivas !!! Mas as vezes precisamos postar textos realistas para algumas pessoas se identificarem e prestarem mais atenção nas suas vidas. Bjss

      • Heloisa

        Belíssimo texto muitas vezes precisamos ler para refletir e tentar melhorar .obrigado por compartilhar !!!!!Bjos

        • MCelia

          Que bom que este texto te fez refletir, era esse mesmo nosso intuito! Obrigada! Bjs

  2. Betine

    Bom dia.
    Sou fã de carteirinha do VIVA 50.
    Muitas coisas eu não parava pra prestar atenção dessa minha nova fase da vida.
    Quando “cinquentei” não tinha noção o quanto seria bom ser uma mulher de 50 ou mais.
    Passados 2 anos e alguns meses, percebi que estou plena..
    Assim como vejo minhas amigas no mesmo estagio.
    Muitas coisas que leio aqui servem para consolidar a minha alegria de ter 50 anos.
    Casei cedo, tive filhos cedo e para consolidar tudo isso vou ser Avó! !!!
    Achei lindo esse texto…
    Mas eu nao me acostumo com nada disso.
    Hoje estou tentando e espero chegar la, mudar a minha mesmice.
    continuarei a trilhar caminhos tortuosos pelo simples fato de nao me acostumar com a mesmice.

    Bjs e um lindo domingo.

    • MCelia

      Betine, que bom ter voce aqui com a gente!!! Adoramos!!!! Que bom que voce pensa como a gente, que a vida deve ser vivida ..aos 50, 60 , 70 etc…. Nunca deixe de acreditar nisso , viu? Volte sempre e um beijo grande!

  3. paula

    Gostei

  4. marisa ines

    sempre textos muito bons e verdadeiros…parabens

  5. suely

    Infelizmente nós acabamos se acostumando perdendo relembro de subir numa arvore coisa que as crianças hoje em dia nem saber subir por que não tem mais aquele espaço para ter uma arvore não a um campo para as crianças jogarem e peladas brincar de pique estamos num apertamento a população cresceu e com isto veio a modernidade e nossos costume que era bom se foi esta só nas nossas lembranças,
    Seu poema descreve tudo o que sentimos e acabamos se acostumando.

    • MCelia

      É mesmo, Suely, é muito dificil ver crianças brincando na terra , subindo em arvores, etc… Mas o importante e nós guardarmos essas lindas lembranças e procurarmos sentir mais estas sensações outroras sentidas , não é mesmo?bjss

  6. Noêmia Custódio da Silva

    A autora do texto nos dá a exata noção do quanto vamos aceitando, aceitando até que a vida se torne completamente automática, sem sabor e sem nenhuma cor!

    • MCelia

      Verdade, Noemia! Bjs

  7. Regina lucia

    Gosto deste texto, se encaixa no que estou vivendo. Achava que vivia um conto de fadas. Mas….. então agora é bola pra frente.

    • MCelia

      Ola, Regina, é isso aí, bola pra frente! E como falei no outro comentario seu: estamos aqui para te escutar se você precisar, ok ? Bjs

  8. Neusa

    Olá, bom dia! O texto é real, embora eu não viva isso ele fala das verdades de muitos, parabenizo pela escolha, pois isso faz refletir e se tiver alguém passando por essa situação certamente vai querer mudar, semana abençoada em Cristo Jesus!

    • MCelia

      Bom dia, Neusa, também esperamos que nossos textos façam as pessoas refletirem, obrigada por estar aqui com a gente! Bjs

  9. Rita de Cassia

    Excelente texto! Parabéns. É uma realidade. As pessoas se acostumam, às vezes por falta de estímulo, a tudo que demanda esforço. Abraço

    • MCelia

      Verdade , Rita! beijos ( desculpe a demora em te responder…)

  10. Leila Maria

    Lindo, uma realidade…mas não devia ser!

    • MCelia

      Verdade, Leila, por isso devemos estar atentas as coisas a nossa volta, beijos

  11. Vera Lucia Furtado dos Santos

    Maravilhoso e Verdadeiro,é isso que as pessoas necessitam de Autenticidade.

    • MCelia

      Lindo, né, Vera Lucia? Por isso precisamos estar sempre com atenção voltada para nós mesmas…beijos