Quanta felicidade eu aguento? – por Martha Medeiros

03/09/17 | postado por: Virginia Pinheiro

 

“Te desejo toda a felicidade que puder aguentar”. Foi com essa frase que uma pessoa que gosta de mim encerrou seu e-mail, e fiquei petrificada diante do computador, um pouco pela explosão de gentileza de alguém que nem conheço, e outro tanto pela contundência que me fez pensar: Quanta felicidade eu aguento?

Desde que lancei um livro com a palavra “feliz” no título (a coletânea de crônicas “Feliz por Nada”, de 2011) que respondo até hoje a uma infinidade de entrevistas com esse mote: O que é, afinal, ser feliz?

Bom, quando estou triste, estou feliz. Não sei se isso responde.

Felicidade não tem a ver com oba-oba, riso frouxo, vida ganha. Isso é alegria, que também é ótima, mas que não tem a profundidade de uma felicidade genuína que engloba não só a alegria como a tristeza também. Felicidade é ter consciência de que estar apto para o sentimento é um privilégio, e que quando estou melancólica, nostálgica, introvertida, decepcionada, isso também é uma conexão com o mundo, isso também traz evolução, aprendizado.

Feliz de quem cresce. Mesmo aos trancos.

Infelicidade, ao contrário, é inércia. A pessoa pode passar a vida inteira sem ter sofrido nada de relevante, nenhuma dor aguda, mas atravessa os dias sem entusiasmo, anestesiada pelo lugar-comum, paralisada por seu próprio olhar crítico, que julga os outros sem nenhuma condescendência. Para ela, todos são fracos, desajustados ou incompetentes, e não sobra afetividade nem para si mesma: se está sozinha ou acompanhada, tanto faz. Se lá fora o sol brilha ou se chove, tanto faz. Se há a expectativa de uma festa ou a iminência de uma indiada, tanto faz.

Essa indiferença em relação ao que os dias oferecem é uma morte que respira, mas ainda assim, uma morte.

Eu reajo, eu me movo, eu procuro, eu arrisco – essa perseguição a algo que nem sei se existe é a uma homenagem que presto à minha biografia. Nada me amortece, tudo me liga, tanto aquilo que dá certo como também o que dá errado. Felicidade é uma palavrinha enjoada, que remete só ao bom, mas dou a ela outro significado: é uma inclinação abrangente e corajosa para a vida, que nunca é só boa.

Já a infelicidade é uma blindagem contra o encantamento, é negar-se a extrair das miudezas o mesmo feitiço que as grandezas proporcionam.

Eu celebro o suco de laranja matinal, o telefonema de uma amiga, a saudade que eu sinto de algumas pessoas, o sol caindo no horizonte, a luz que entra pela janela do quarto ao amanhecer, a música que escuto solitária e que me remete a uma inocência que já tive – e pelo visto ainda tenho. Celebro o já vivido e o que está por vir, as risadas compartilhadas e o choro silencioso, e todas as perguntas que um dia talvez sejam respondidas.

Como esta: Quanta felicidade eu aguento? Não sei. Que venha. Recusá-la é que não vou.

 

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20 Comentários:Quanta felicidade eu aguento? – por Martha Medeiros
  1. Janeisa Tomás

    Martha é gaúcha como eu e daqui de Porto Alegre, é expressão máxima como cronista. Sua coluna na ZH de hoje está fantástica. Ela escreve com maestria sobre o cotidiano e sobre os nossos sentimentos, tão bem colocados em “Quanta felicidade Eu Aguento”?
    Bjs
    Neisa

    • MCelia

      Ola, Janeisa, vou procurar esta cronica que voce falou, deve ser muito boa, como tudo que a Martha escreve! Uma ótima semana para voce! Bjs.

  2. maria lucia

    Olá
    Passo de vez em quando pelo blog. Atualmente temos tantas palavras a serem lidas…então algumas vezes como hoje, brotam palavras mais inteligentes e adoravelmente provocativas nesse texto. Não me chama atenção palavras agressivas, mas sim a forma delicada de alguém ao escrever, destacar algo importante para a vida, como vc o fez. A noção de felicidade é abundantemente distorcida ( vinculada a ideia de somente vivermos e termos coisas boas) e vc Martha nos recorda a uma perspectiva mais real para o conceito. Felicidade talvez seja a possibilidade de estar viva com todas as imperfeições e desafios. Infelicidade é a negação da vida. Enfim, até onde podemos suportar estar vivas? Muito bonita essa frase. Texto prazeiroso. Parabéns!

    • MCelia

      Ola, Maria Lucia, muito bom ter voce aqui com a gente com palavras tão lindas…É bom ler coisas que nos levam a reflexão, não é mesmo? Volte sempre e obrigada!!!bjs

  3. Maria Luiza Campos do Amaral Moreira

    Ai, que tudoooo…
    Apesar dos pesares, sou eu…..

  4. Júlia Albuquerque Vieira

    Virginia boa noite aqui de Lisboa,
    Possivelmente este post já esteve por aqui pois vi comentários de Março e nós estamos a 24 de Julho. Fazem bem em repetir, sempre há algum que escapa. Martha é fabulosa, sempre a leio com prazer, assim como Luís Veríssimo e outros. Vou tentar lhe enviar uns textos fabulosos de nosso grande jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho (mas primeiro tenho que lhe pedir permissão, penso que agora está de férias (ele é o top da SIC) adoro-o como jornalista e como ser humano. Temos vários só aqui de Portugal. Mas se quiser ir para a lusofonia tem o grande Mia Couto de Moçambique e o José Agualusa de Angola (minha terra amada) ambos são escritores o R G C também tem livros editados e passados ao cinema (mas como cronista é show) dos dois últimos é só pôr aí sua equipa a pesquisar, quanto ao RGC vou mesmo ter que lhe pedir autorização.
    Beijos meninas do Viva50 tenham um bom fim de semana, por aqui está um calor que só abranda ao cair da noite. Delicia esta brisa fresquinha que vem lá do mar.
    Júlia (Lisboa)

    • MCelia

      Boa tarde por aqui, Julia! Se puder enviar estes textos por email ( [email protected]) vamos adorar! Bom calorzinho ai para voce , bjs e obrigada!!!

  5. Lilian Lerner

    adorei, também penso assim…

  6. Martha Dondeo

    Quando digo que é através do sofrimento que nos tornamos melhores, dizem que sou masoquista… Pessoas que recebem tudo de “mão beijada”, não amadurecem, permanecem como aquelas frutas colhidas antes da hora e apodrecem antes de se tornarem maduras e saborosas…
    Parabéns “xará”! Amo os teus artigos!

    • MCelia

      A sua “xará” realmente coloca em palavras o que pensamos não é mesmo, Martha? Beijos.

  7. laura

    Emocionei

    • Virginia

      Lindo né Laura, esse texto me emociona muito também.

      Beijo

  8. Regina Consuelo

    Obrigada por texto tão profundo que me leva a reflexão da minha felidade!

    • MCelia

      As vezes é bom parar um pouco e refletir sobre nossa vida, não é mesmo, Regina? Que bom que o texto chegou em boa hora à você! Bjs

  9. Vânia Delella

    Nao conhecia esse texto da Martha e achei maravilhoso , não tinha conhecimento tb do blog , que aproveito para dizer que achei a ideia fantástica , afinal ter 50 anos na minha opinião é uma delicia , me sinto muito melhor comigo hj do que nos anos idos onde uma certa ” inocência ” pairava em tudo e muita coisa não fazia sentido.
    Desde já , parabéns a DURGA com suas novidades sempre elegantes e de um bom gosto pouco visto por aí .
    Grata , grande beijo
    Vânia Delella

    • MCelia

      Vânia, muito bem vinda ao Viva50! Muito bom ter você aqui com a gente com esta energia contagiante e em paz com sua idade rsrsrs. Que bom que gostou do nosso post com as batas da Durga! Volte sempre !!! bjs

  10. Ana

    Tente se colocar no lugar das milhões de pessoas que lutam contra a depressão. E sofrem muito. E essas palavras até maltratam.

    • MCelia

      Ola, Ana, desculpe se você leu o texto e viu dessa maneira, eu ja vi ao contrario, achei que o texto ajuda quem esta depressiva pois tenta mostrar felicidades em coisas pequenas. Mas nos desculpe se não gostou… bjs

  11. Sonia Nordqvist

    Adorei o texto!

    • MCelia

      Que bom Sonia, a Virginia sempre nos presenteando com posts com textos lindo, não é mesmo? bjs