Você sabe o que vai fazer com o resto da sua vida? – por Magda Raupp

04/06/17 | postado por: Virginia Pinheiro

 

– “Quem é você?”, a lagarta perguntou à Alice, que respondeu hesitante: “Eu… Eu… Eu não sei bem quem eu sou agora… Eu era outra pessoa, mas acho que mudei… Não sei bem quem eu sou agora… Estou diferente…”.

– “Você está diferente? Mas afinal, quem é você?”, a largarta insistiu.

Aventuras de Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll (1865)

 

Desde que aprendem a falar, as crianças são atormentadas com a pergunta “O que você quer ser quando crescer?”. Geralmente elas respondem com maior ou menor entusiasmo: bombeiro, piloto, inventor, jogador de vôlei, médico etc. Da adolescência à idade adulta a pergunta continua a ser feita, mas fica mais aberta: “Quais são seus planos de carreira?” ou simplesmente “O que você quer da vida?”. E as respostas são cada vez mais longas: “Ter meu próprio negócio”, “Casar e ter filhos”, “Ganhar muito dinheiro”, “Entrar na política” etc.

Na beira dos 50 ou dos 60 – ou já tendo ultrapassado essa linha e contemplando a próxima fase da nossas vidas – é natural que a mesma pergunta volte a nos atormentar. Os filhos estão criados e em muitos casos já saíram de casa, já casaram e têm vidas familiares e profissionais que os ocupam em tempo integral. Você já não é muito necessária em uma casa quase vazia e a vida sexual com o marido não tem grande interesse para nenhum dos dois (se você teve sorte, ficou o companheirismo e a amizade). A aposentadoria chegou ou está próxima. E você se pergunta “O que vou fazer com o resto da minha vida?”. E faz essa pergunta esperando ouvir uma resposta. Mas ninguém responde…

Refletir como queremos viver o tempo que nos resta de vida — que por sermos uma geração saudável podem ser vinte, trinta ou mais — nos força à uma reflexão sobre quem nós somos agora (nesse momento), quem realmente queremos ser e o que desejamos fazer nos anos que se estendem à nossa frente. O percurso através desses anos pode tornar-se uma aventura, uma busca da autenticidade, um esforço para descobrirmos quem realmente somos debaixo dos “disfarces” que até agora usavámos: filha obediente, boa mãe, esposa fiel, responsável pela casa, pelo supermercado, pela comida, pelo bem-estar da família… Mas quem é realmente a mulher por trás das máscaras?

Celina, aos 63 anos estava divorciada e morando em um belo e confortável apartamento de quatro quartos em Copacabana com os três filhos: um no último ano de Medicina e dois já formados e trabalhando. Adicione as namoradas que vinham passar os finais de semana e os feriados, os almoços, cafés da manhã, supermercado, roupas de cama, toalhas molhadas, casa cheia de areia… Não preciso dizer mais, você já entendeu. Um domingo ela acordou às seis da manhã e foi caminhar no calçadão, coisa que não fazia há anos, pois ela sempre acordava cedo para preparar o café, planejar o almoço de domingo ou ir ao super. Mas naquele domingo, ela fez diferente. Caminhou, pensou na vida que vinha vivendo, comprou o jornal e foi direto para os classificados procurando um apartamento de quarto e sala. Quando se mudou, uma semana depois dessa caminhada, deixou em cima da mesa uma cartinha para os filhos: “Estou me mudando. Este apartamento onde moramos até agora está no meu nome, mas é de vocês. Cuidem bem dele. Estou levando somente a minha roupa, minhas coisas pessoais e os meus livros, não preciso de mais nada. Não me procurem. Eu entro em contato com vocês quando estiver pronta”. Ela me disse que quando entrou no quarto e sala alugado onde apenas havia uma cama e trancou a porta, entendeu perfeitamente o que sente um prisioneiro quando a porta da prisão se abre à sua frente depois de anos…

Silvia chegou aos 55 saudável mas deprimida por se sentir desnecessária. Os filhos que ela tanto cuidou já não precisavam mais dela. Começou a exagerar na bebida e para “castigar” o marido que não mostrava grande interesse sexual com frequência estourava o cartão de crédito dele. Ela contava isso para as amigas e se sentia vingada.

Assustada com idade e com as rugas, Carmem fez tantas plásticas que hoje está irreconhecível e deformada. Não parece mais jovem, mas sim, alguém que fez muitas plásticas. Faltou rejuvenecer sua vida e como um disse minha amiga Georgina, “Não é por aí”…

Claudia começou a correr aos 49 anos. Hoje com 59 não só participa de meias maratonas, mas fez um excelente grupo de amigos que correm e celebram as vitórias juntos. Às seis horas da manhã ela já está no Ibirapuera pronta para os desafios que vierem.

Marília, aos 70 anos, convenceu o companheiro a comprar uma lancha, aprendeu a navegar, tirou carteira de arrais amador e hoje os dois dormem na lancha e passam o verão entre Cabo Frio e Búzios.

Nara, sempre elogiada pelas boas fotografias que tirava, aos 51 anos iniciou uma carreira como fotógrafa. Fez cursos, comprou uma excelente câmera e hoje é reconhecida como fotógrafa, já tendo feito várias exposições.

Eu mesma, aos 66 anos, caminhei 250 quilômetros no deserto de Saara com a mulher com quem meu primeiro marido se casou pela segunda vez. Talvez quando mais jovens, nós não seríamos tão tolerantes e não pudéssemos ter nos tornado as grandes amigas que somos.

No decorrer das nossas vidas aceitamos muitos papéis e expectativas em relação ao nosso comportamento. Aceitamos sem discutir responsabilidades para as quais não estávamos preparadas. Quem disse que eu estava preparada para ter um filho aos 21 anos? Livres das correntes da fertilidade, maternidade, filhos, marido, cuidados com os pais, com a casa, comida, algumas mulheres agradecem e florescem; outras perdem o rumo e caem dentro do buraco onde caiu Alice quando visitava o País das Maravilhas: não sabem em qual extremidade está a saída.

Como a Dra. Louann Brizendine explica no livro “The Female Brain”, o cerébro feminino é “formatado” para evitar conflitos. De maneira geral, a mulher “busca a conciliação, evita confrontos, a raiva e a agressividade da mesma maneira que o homem evita emoções”, ela conclui. Mas a medida que os anos passam e a a menopausa se acentua, nosso perfil hormonal se modifica: o nível de estrogênio cai e o componente testosterna, mais agressivo, torna-se mais influente, aumentando a energia e a possibilidade de decidir, de dizer e de fazer o que queremos.

Para cada uma de nós chegando aos 50, 60 ou 70 ou já tendo passado desta marca, o resto das nossas vidas já chegou, está à espreita, nos desafiando, esperando por nossas respostas. Como vamos viver cada dia, quais as relações novas que vamos estabelecer, o que mais queremos aprender, de que maneira vamos contribuir para o mundo que nos rodeia; tudo isso está sendo decidido na busca por autenticidade embutida nas perguntas “De que eu realmente gosto?”, “Quem sou eu quando estou só e ninguém está me olhando?”.

magda8

Magda Raupp é psicóloga, cientista social e autora de livros didáticos e de narrativas de aventuras. Na década de 80 mudou-se para Los Angeles para fazer o doutorado. A estadia que a princípio seria de quatro anos estendeu-se por mais de quinze anos, repletos de viagens, projetos de trabalho, amizades, amores e histórias.

Muitas cidades e dois casamentos depois, ela retorna ao Rio e faz de Ipanema seu porto seguro, mas continua viajando para trabalhar ou fazer novas descobertas. Magda escala, é mergulhadora e caminhante, tem dois filhos e três netos. Fluente em quatro idiomas, já viveu, trabalhou ou viajou por mais de quarenta países nas Américas, África e Europa.

 

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30 Comentários:Você sabe o que vai fazer com o resto da sua vida? – por Magda Raupp
  1. Eunice Souza

    Amo Viva 50!!!

    • Virginia

      Oi Eunice, esse belo texto da Magda nos faz refletir mais profundamente a respeito de nós mesmas não é mesmo? Uma ótima semana para você, bjs

  2. marisilda andrade

    Amei o texto

  3. regina meirelles

    Aguardando esse maravilhoso livro!!!

  4. NELI

    para refletirmos

  5. VERA SCHULTZE

    Uau! Gostei!

  6. maria lucia

    Olá, companheiras do VIVA 50

    Como os dois textos ( síndrome do ninho vazio) e este se complementam! Tudo tem seu tempo e seu ciclo na natureza. A saída dos filhos de casa, a aposentadoria, a menopausa , são mudanças biológicas, relacionais e ocupacionais. No tempo dessas mudanças é momento de perguntar e encontrar, tempo de se cuidar e projetar novas possibilidades. Sou uma pessoa que acompanhou pessoas na trajetória de envelhecer, por conta de minha atividade profissional. Essa experiência me revelou que independente do nível de escolaridade e social, há escolhas. Aprendi que há diferentes ” velhices”, definidas por toda uma história de vida, mediante escolhas que a pessoa fez em sua vida. Há velhices amarguradas, rancorosas, a espera da morte e há as velhices sábias, acolhedoras e conscientes. Há um eixo central que se torna um desafio: não negar o envelhecimento mas também não se entregar a ele. Atitude sutil. Manter o brilho nos olhos, o contato consigo mesmo, o conhecimento de si mesmo , ainda são claves para uma escolha mais saudável diante da fase da maturidade. Brilho nos olhos não tem procedimento estético que traga de volta. Os olhos são o espelho da alma. boa semana para todas!

  7. Maria Aparecida Holtz de Campos

    Perfeito o texto.Muito bom.A vida é isso mesmo.

  8. olga

    Concordo plenamente em que ¨o resto de nossas vidas ja chegou¨. Porém acho que sempre é assim, pelo menos pra mim. A vida sempre, dia a dia, precisa ser desafiada, definida, cuidada. Entao nao séi se concordo com esse clima de acertar assinaturas pendentes, de finalmente ser feliz e decobrir ¨quem realmente somos debaixo dos “disfarces” que até agora usavámos¨… Eu ate agora vivi a vida de acordo a minha natureza, e as circunstancais que apareceram. Nem sempre fui feliz, e nem sempre acertei nas minhas escolhas ou decissoes… mas, nao usava disfraz e se tenho mágoas o más lembrancas, sao parte de minha historia como os grandes momentos também. Se teve medo, errei feio, ou enfrentei o desamor, nem sempre foi todo uma penuria, uma encruzilhada o solidao. Acho melhor viver a vida daqui pra frente como sempre, de frente, errando, acertando, com mais experiencia, com menos expectativas, com projetos, afetos, mas sem essa sensacao de me definir e corrigir minha vida ate aqui. nao foi das melhores, mas e o que eu sou e eu nao sou uma adolescente mal resolvida, nem um disfraz.

    • maria lucia

      Oi Olga
      Interessante seu ponto de vista. Me lembra: se chorei ou se sofri o importante é que emoções eu vivi. Talvez a inclusão de todos os momentos vividos, independente se foram felizes ou não, seja essa maturidade e essa velhice consciente e sábia.
      Maria Lucia

  9. Maria Cristina Panatieri

    Magdala,
    Sucesso sempre !
    Uma admiração muito grande sinto por ti.
    Beijos
    Tina

  10. Sonia Nordqvist

    Uau! Adorei! Bjs

    • MCelia

      Demais , né, Sonia ??? bjs

  11. ada

    amei a materia, talvez desperta alguma mulher para uma vivencia

  12. Denise

    Mto legal, adorei!!!!

    • Virginia

      Olá Denise, o texto da Magda nos faz refletir mais profundamente a respeito das nossas vidas, o que realmente queremos ser, e fazer, daqui para frente? eis a questão! Grande abraço e até a próxima!

  13. zaira

    ola!! fantástico esse texto, avida começa aos 50….e viva50 bjus

  14. Andreia Oliveira

    Adorei esse blog VIVA 50,estou proxima dos cinquenta,quero poder chegar me sentindo um pouco melhor do que me sinto agora.

  15. Ludmila Maia

    Excelente!

  16. Janeisa Tomás

    Excelente texto para reflexão, e os depoimentos exemplificam um pouco de cada uma de nós. Pelo menos, vi um pouquinho de mim em cada. Lembrei do livro da sábia Danusa Leão , se não me engano, o Bem Simples, onde ela se desapegou de tudo e foi viver também em um quarto e sala em Ipanema e que lhe permite não precisar nem de carro. São os ciclos da vida em que quando chega nessa fase temos que nos deparar com todos os fatores tão bem colocados. É preciso refletir diariamente e tomar decisões e fazer escolhas que contemplem a nossa felicidade e também de quem nos cerca.
    Bjs

  17. Maria

    Eu cai no buraco, perdi o rumo…eu queria me encontrar…

    • MCelia

      Ola, Maria, seja forte, levante! Temos tantas coisas boas ainda a fazer! Cuide-se…um bom fim de semana para voce , bjs

  18. eliane

    Amei todas as histórias aqui contadas e é pura verdade…..estou numa fase assim, recém aposentada e pensativa “o que vou fazer daqui prá frente”?

    • MCelia

      Foi o que aconteceu com a gente e fizemos o Viva50! Viva! Pense bastante que quando voce menos espera uma coisa bem legal aparece para voce ! bjs

  19. Elaine Maria da Costa

    Amei este texto fala tudo, parabens bjos.

  20. Elaine Maria da Costa

    Parabéns pelo lindo texto bjos.

  21. Sandra Louzada

    Parabéns meninas! Acertaram em cheio nos sentimentos com esta página perfeita. Obrigada. Agradeço também este artigo maravilhoso que nos toca, nos faz refletir e que também nos faz lembrarmos de sempre em primeiro lugar nos amarmos. Nos amarmos com nossos erros, acertos…pouco ferro e fogo mais alegria e suavidade. Parabéns! Viva 50!

    • Virginia

      Olá Sandra, às vezes nos deparamos com um texto que parece ter sido escrito para nós, ele chega na hora certa e nos ajuda a decifrar questões fundamentais a nosso próprio respeito, não é?
      Obrigada por participar do viva50. Grande abraço

  22. Laura sato

    Ameiiiii!!! Excelente reflexão para eu fazer, retirando os papéis que desempenho, QUEM SOU EU? Um grande abraço.

    • Virginia

      Oi Laura, esse texto da Magda é ótimo pois nos ajuda a refletir sobre uma questão fundamental pertinente a essa nossa fase de vida. Que bom que te ajudou!
      Beijo