COMO VOCÊ VAI PROVAR QUE FOI ASSÉDIO ?

16/05/18 | postado por: MCelia

Depoimento de  uma amiga  50+ que foi surpreendida por assedio sexual e moral dentro do metro: 

“Estava no metrô, linha verde sentido Vila Madalena, voltando para casa após um dia de trabalho, sentada no assento do corredor. Do meu lado direito estava uma moça e no assento preferencial, um senhor.

 Estava pensando nos meus próximos afazeres, me lembro que eu até estava coçando a testa, quando 

sinto uma cutucada no meu braço esquerdo com intensidade suficiente para chamar minha atenção para o fato.

 Ao meu lado, bem próximo a mim, estava um homem magro, de terno de padrão quadriculado tipo risca de giz, de fundo azul marinho , traçado cinza escuro, sapato de trabalho, gravata de cor contrastante, puxando para laranja. Ele estava muito perto de mim sem necessidade pois o vagão não estava nada cheio. Eu olho para o homem, ele dá uma arrumada no terno bem na região de onde eu recebi a cutucada,  imediatamente penso: o cara me cutucou com o bilau? 

 Na dúvida,  peguei minha mochila e a coloquei no ombro esquerdo, o que levou a cutucada, de forma que  ele fosse obrigado a manter distância, sem disfarçar minha intenção.

 Mas ficou aquela sensação, a cutucada não foi um esbarrão, não era a coxa dele, o metrô não estava chacoalhando, o vagão não estava cheio, porque ele se pôs tão perto de mim?, ele não estava distraído no celular, como acusá-lo? Ele não pôs o pau para fora da calça!

 Comecei a olhar para ele incomodada, magro, branco, cabelo preto sem corte, rosto de pele flácida com pregas, entre 35 a 40 anos, enfim, um ser meio ensebado. 

Com minha atenção, ele lentamente saiu do lugar e foi se posicionar na região da porta , mas na região oposta ao lado da porta que seria aberta, atrás de duas pessoas que conversavam.

 Aí veio a confirmação . Ele me procurou com o olhar, e esboçou um muito, muito leve sorriso.

 Filho da puta ! Daí eu decidi fotografá-lo, claro! Abri minha bolsa e peguei o celular, mas o metrô parou na estação Consolação e ele saiu. Cheguei a pensar em sair correndo atrás dele mas me contive. Como eu vou provar que ele me cutucou com o bilau através do terno de forma intencional??

Segui desconcertada até a estação Sumaré, pensando em todas as vezes que eu fui considerada paranoica pelas experiências semelhantes pelas quais já passei e os hábitos de defesa que desenvolvi por conta disso.

 Comecei a sentir uma emoção, uma raiva, uma humilhação, eu não tinha como provar o assédio!

 Quando cheguei na catraca e vi o funcionário do metrô decidi falar com ele, mesmo que mais uma vez eu tivesse meu relato invalidado.

 Quando o funcionário me deu atenção fiquei emocionada, (Como eu ia provar que o cara me cutucou com o bilau de forma intencional ?) então fiz sinal para que o funcionário esperasse até eu ter condições de falar, e foi só depois de alguns segundos que eu disse: Assédio.

 Ele então me ouviu, anotou as características do indivíduo e pediu para o colega alertar o setor de segurança do metrô. Sabíamos que naquele momento, e da forma como aconteceu, o abusador não seria imediatamente identificado. O funcionário disse que estes indivíduos tendem a repetir este comportamento e que por isso é importante relatar o ocorrido, falou ainda que o metrô está seriamente empenhado na luta contra o assédio sexual.

 Comentei que na minha idade eu tinha sido pega de surpresa, ele me respondeu que para o abusador a idade não importa.

Ele também me perguntou se eu precisava de alguma ajuda, de um médico, de ajuda para ir para casa, de um copo d´água, se eu estava em condições de seguir caminho.

O funcionário do metrô me ouviu, não duvidou do meu relato, não me olhou de modo estranho, como se a louca fosse eu.

 Eu não tive que provar nada”

3 Comentários:COMO VOCÊ VAI PROVAR QUE FOI ASSÉDIO ?
  1. Tatiana Gianordoli

    Perfeito na Indignação , na necessidade de falar, de soltar o engasgo. O mínimo numa situação dessas.

    • MCelia

      Verdade Tatiana , ela foi muito corajosa, né? beijos

  2. Miranda

    benção sem medidas.. obrigado .