Conte pra Bel – por Magda Raupp

15/03/20 | postado por: Virginia Pinheiro

 

Bel tem cabelo escandalosamente vermelho e fala mansinho—sua voz é um sussurro. E diariamente ouve muitas histórias de muita gente diferente. Ela pergunta pouco, concorda sempre e jamais julga. Há mulheres que reclamam que os maridos e namorados não prestam atenção à elas, que as tratam mal, que não transam; outras contam que os companheiros bebem demais ou que passam quase todo o tempo livre na internet, que trabalham demais ou que malham demais (obviamente “demais” é um conceito centrado em nossa percepção do que é desejável para nós…).

Há mulheres que querem se separar e não tem coragem e aquelas que não se conformam com uma separação. Há as que choram, as que tem crises de raiva ou de ciúme falando no celular e ao desligar reproduzem a conversa para ela; há mulheres que acusam e que se acusam; algumas estão à beira de um ataque de nervos como aquelas do cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Antes de continuar, deixe-me esclarecer que Bel não é psicóloga nem psicanalista nem psico nada—ela é cabeleireira. Perguntei à ela se não se sentia afogada com tantas confissões. “Não,” ela me respondeu, “as pessoas querem falar. Eu deixo que elas falem e elas saem mais leves, aliviadas. Eu? Na mesma hora esqueço o que ouvi…” E achei muito interessante sua percepção do trabalho que faz, “Nós mexemos com a imagem das pessoas. Mulheres chegam aqui se sentindo feias e sempre saem se achando mais bonitas. Chegam mal e saem melhor.” Eu me pergunto se é por causa do desabafo ou do cabelo hidratado e escovado, os pés e mãos impecáveis, os pêlos supérfluos eliminados? Ou os dois estão irremediavelmente ligados?

Pensei nisso ao recomendar um terapeuta para um amigo e porque considero que todos nós em algum momento deveríamos cuidar das cabecinhas. Com certa regularidade fazemos exames de sangue, tiramos radiografias, mamografias, nos preocupamos com o colesterol. E a cabeça (por dentro) como está? Tenho um primo médico, neurologista, que me diz que aproximadamente 80% das pessoas que chegam à um consultório médico não tem doenças somáticas, físicas—são doenças psíquicas, criação da imaginação! Confesso que fiquei surpresa: 80%? Impossível! Mas como ele tem cinqüenta anos de medicina e de paciência… Uma ocasião, uma amiga bateu à minha porta de madrugada depois de ter sido expulsa de casa no meio da noite pelo homem com quem vivia. Durante horas escutei suas lamentações. Ela chorou, reclamou, descreveu as humilhações às quais tinha sido submetida. Fiquei furiosa com o fdp que havia feito minha amiga sofrer tanto. Tive ímpetos de ir à casa dele, fazer um escândalo na porta, atirar pedras nos vidros das janelas da casa dele, jurei que se um dia encontrasse ele na rua iria dizer tudo o que pensava dele. Era dia quando finalmente fomos para cama mas eu nem consegui dormir. Sai para comprar pão e ao voltar encontro minha amiga no telefone falando com quem? Você adivinhou, com ele mesmo! Um pouco envergonhada ela me explicou que ela estava somente dizendo para ele onde estava…não queria que ele se preocupasse. Pode?

Portanto não conte suas mazelas para familiares nem para as amigas porque eles cobram e não esquecem. Hoje você briga e amanhã faz as pazes e depois briga de novo. Assim é a vida. Mas as amigas e os familiares que você usou como confidentes vão exigir que você tome uma atitude ou então vão achar você covarde e babaca. E a gente não é nem covarde nem babaca…somos apenas humanos. Com a Bel é diferente: numa semana você tem liberdade para descrever as brigas e reclamar e na próxima você pode contar como se reconciliou com seu amado e como vão festejar em Búzios ou em Punta del Este e ela não tá nem aí. Só vai dizer, “Ih, Dona Magda, que legal…”

Então quando você estiver com a cabeça complicada, procure um terapeuta. Ou conte pra Bel—há milhares delas em todos os salões de cabeleireiro pelo Brasil. Sua faculdade é ter ouvido histórias contadas por uma multidão de mulheres. Faça as contas: 5 ou 6 clientes por dia 20 dias por mês, 12 meses no ano multiplicados pelos anos de trabalho… Antes que me esqueça: perguntei à ela sobre os homens que ela atende. Obviamente são um número muito mais reduzido e não gostam de conversa— entram mudos e saem calados, querem um atendimento rápido, evitam assuntos particulares e principalmente não contam nada que os faça parecer menos poderosos ou menos potentes. Eles não sabem o bem que faz reclamar do marido (ou da mulher) enquanto alguém massageia sua cabeça!

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9 Comentários:Conte pra Bel – por Magda Raupp
  1. Silvia

    Adorei!!! Me da o endereco da DraBel???? Kkk

    • Magda Raupp

      Silvia, todos os salões tem Bel…é mais barato que um psicanalista e você ainda sai de lá bem Bonitinha!

    • Magda Raupp

      Oi Sonia,
      A minha Bel está em Ipanema em frente ao meu prédio…Quando vier ao Rio, pode procurar por ela. Ela está em muitos salões espalhados por aí. Você vai sair bem linda e com a cabeça fresca! Bjs, Magda

    • Magda Raupp

      Que bom, Tiana! Quando a gente escreve gosta de saber que é apreciada. Bjs, Magda

  2. Sonia Nordqvist

    Tanta verdade nesse texto. Adorei. Bjs

    • Magda Raupp

      Oi Sonia, penso que se os homens fossem mais ao salão de beleza ou contassem suas mazelas para os amigos sem tentar ser sempre o vencedor seriam mais felizes…Bjs, Magda

  3. Júlia Albuquerque Vieira

    Meninas,
    Que excelente este texto da Magda, é que é tudo verdade, evidentemente que essa de fazer da cabeleireira/o sua psicóloga só dá mesmo com algumas, aquela que te atende sempre, para a qual quando telefonamos queremos que seja ela a atender-nos e quando não está ou está cheia de trabalho marcamos para outro dia. Mas atenção a maioria não é Bel, na próxima cliente ela já tem tema de conversa. Que bom ter uma Bel na nossa vida.

    Beijos
    Júlia (Lisboa)

    • Magda Raupp

      Verdade Julia. Mas acho que quem conta sempre aumenta um ponto…Assim a história que você contar para a sua Bel já será outra quando ela passar adiante e você nem vai reconhecer. Estou escrevendo um livro com histórias de sexo que amigas e amigos me contaram. Mas as histórias são “massageadas” e modificadas e acabam sendo diferentes daquilo que me foi contado. Bjs, Magda