Leia no Viva50 as deliciosas crônicas de Magda Raupp

03/09/14 | postado por: Virginia Pinheiro

 

Quem é Magda Raupp:

Magda Raupp é psicóloga, cientista social e autora de livros didáticos e narrativas de aventura. Na década de 80 mudou-se para Los Angeles para fazer doutorado. A estadia que a princípio seria de quatro anos, estendeu-se por mais de quinze anos repletos de viagens, de projetos de trabalho, de amizades, de amores e histórias.

Muitas cidades e dois casamentos depois, ela retorna ao Rio e faz de Ipanema seu porto seguro, mas continua viajando para trabalhar ou fazer novas descobertas. Magda escala, é mergulhadora e caminhante, tem dois filhos e três netos. Fluente em quatro idiomas, já viveu, trabalhou ou viajou por mais de quarenta países na América, África e Europa.

Querida amiga

O Viva50 tem o enorme prazer de anunciar que todas as quartas-feiras, às 16h, publicará  uma crônica escrita pela Magda Raupp, que, além de muitas outras coisas, é também uma excelente cronista.  Magda consegue captar com sensibilidade e humor os fatos do cotidiano extraindo deles cor, vida e ensinamentos bastante valiosos.

Deixe-se levar pelo olhar da Magda, tenho certeza de que você vai se encantar!

 

Crônica 1

AS COISAS QUE A GENTE GUARDA

12 xícaras de chá de porcelana alemã que minha avó recebeu de presente de casamento e tudo mais que as acompanham— pratinhos, bules, açucareiro, mantegueira — ocupam duas prateleiras no minúsculo armário da mini cozinha da minha pequena cobertura em Ipanema. Nunca usei…

Um dia acordo pensando em dar tudo para minha neta, mas ela só tem doze anos e não toma chá; mais tarde resolvo vender para um antiquário mas aí ouço a voz da minha avó com seu inesquecível sotaque gaúcho quando me deu o que ela chamava de “aparelho de chá: “É pra ti. Não vai quebrar, nem jogar fora. Eu te conheço, sei como tu és relaxada.”—e imediatamente descarto a opção de venda. Penso dar para minha nora em Dallas porque morei nos Estados Unidos e sei que lá tomam chá — embora em canecas ou copos de papel. Ela gosta de coisas antigas e sei que vai cuidar bem, não vai quebrar nem jogar fora. Mas e a mão de obra para embalar e mandar para lá?

Tenho uma amiga que guarda tudinho o que dão para ela mesmo quando de mau gosto, mesmo quando ela detesta, mesmo quando sabe que nunca vai usar. “Vale a intenção”, ela me diz e põe mais um prego na parede para acomodar o pratinho, Lembrança de Gramado; mais uma réplica da Torre Eiffel vai para cima da mesa de centro; mais uma caixinha Lembrança de Fortaleza passa a enfear o aparador…

Meu primo ocupa um armário inteiro com gravatas de seda e sapatos italianos, ternos e camisas sociais que precisava para trabalhar embora tenha passado os últimos 15 anos, desde que se aposentou, praticamente de bermuda e sandália havaiana. Mas cada vez que a mulher sugere dar ou vender para abrir espaço nos armários (obviamente, ela precisa de mais espaço para acomodar as coisas dela) ele se enfurece e defende com unhas e dentes o direito de ocupar cabides, gavetas e prateleiras com coisas que nunca mais vai usar…

Compramos apartamentos maiores para ter mais lugar para guardar coisas que não usamos. Queremos armários mais espaçosos para pendurar mais roupa que não nos serve ou que já há muito está fora de moda. Até alugamos espaços para guardar o excedente. E porque guardamos tudo isso?

Talvez para estabelecer uma barreira contra o tempo e ter a ilusão de que as coisas não mudam. Mas o tempo passa e as coisas mudam…Talvez por não reconhecer que a vida hoje não é como foi ontem e que aquilo que precisávamos antes não nos é mais necessário. Morei anos em Boston enfrentando invernos rigorosos com temperaturas entre menos 5 e menos 10 graus. Naturalmente, adquiri uma grande quantidade de roupas de inverno. Quando mudei para o Rio, custei a me desfazer de casacões e botas de neve – quem sabe um dia poderia precisar? Até que decidi que não iria mais nem ao Polo Norte nem ao Polo Sul e também não iria a lugar algum no inverno e vendi tudo para um brechó de inverno perto da minha casa.  Resultado? Ganhei metade do único armário existente no apartamento…

Mas o pior do que guardar coisas desnecessárias, é que guardamos ressentimentos, raivas, ódios; lembramos as palavras ofensivas que a sogra nos disse há 15 anos e continuamos a pensar na briga com o irmão ocorrida na adolescência, no casamento há muito desfeito… Ao mesmo tempo que entupimos nossas casas de coisas que não precisamos, ocupamos espaços na memória com lembranças de desavenças passadas que já deveríamos ter esquecido.

Pergunte a você mesma: “Será que estou guardando coisas inúteis, achando que um dia poderei precisar delas? Acumulando papéis, documentos, caixas sem nenhuma utilidade no futuro? Guardando roupas, sapatos, bolsas que já não uso há muito?” Mas principalmente vale a pena perguntar: “Será que guardo ressentimentos, mágoas, raivas?”  Talvez a gente deva criar um espaço dentro e fora para que as coisas novas aconteçam, não acumular coisas velhas e inúteis, tanto materialmente como emocionalmente.

Então, amiga ou amigo, limpe seus armários, gavetas, guarda-roupa, estantes. Dê ou venda o que não tem mais utilidade para você. Esqueça a ofensa recebida porque a pessoa que ofendeu você provavelmente já esqueceu ou nem se tocou que você se ofendeu. Arejar espaços, fora e dentro da gente faz um bem enorme! Vamos lá… Mãos à obra! Desfaça-se do que perdeu a cor e o brilho e deixe entrar o novo em sua casa e dentro de você!

 

41 Comentários:Leia no Viva50 as deliciosas crônicas de Magda Raupp
  1. Valéria Bonafé

    Que maravilha ter a Magda Raupp no Viva 50!Tenho certeza que vcs,queridas amigas,vão adorar ler suas crônicas…tive a sorte de conhecer a Magda pessoalmente e posso afirmar que ela é uma mulher incrível,daquele tipo de pessoa que quando vc conhece,não esquece mais.Magda é inteligente,atual,culta e tem muito senso de humor…mas nao vou contar tudo o que admiro nela,vcs irao descobrir aos poucos lendo suas crônicas.Beijo a todas!

    • Virginia

      Oi Valéria, concordamos inteiramente com você. Estamos muito felizes em ter a Magda aqui no viva50, com certeza as leitoras vão ter a oportunidade de conhecer a Magda através das suas crônicas.
      Beijo

    • Magda Raupp

      Obrigado Valéria. Tantos elogios que nem me reconheço. A admiração é recíproca. Você pode me enviar a receita daquele drink italiano maravilhoso que foi fez em Rio Pardo? O maior sucesso…Bjs

  2. roseli milani

    Achei demais este texto, já venho fazendo isso à muito tempo e está me fazendo um bem enorme…bjus

    • Magda Raupp

      Obrigado Roseli, faz bem mesmo a gente se livrar do peso extra…viajar a vida com pouca bagagem…Bjs

  3. Paulo Siqueira

    O conceito da Magda , atual, vem sendo utilizado de forma humoristica por um site de grande sucesso. Eles dizem que vendem 4 coisas a cada minuto exatamente tirando algo desnecessario e fazendo as pessoas mais alegres e felizes. Quem sabe um dia a Magda resolve tomar cha ou descobrir quem queira Suas xicaras de forma a fazer as Suas antigas donas recompensadas. Quanto as magoas e eventuate raivas ou invejas, abandone-as na proxima lata de lixo.
    Abracos
    Paulo Siqueira

    • MCelia

      hahaha, boa , Paulo, é isso mesmo! O problema é assumir as raivas e invejas e encontrar esta lata de lixo. Adorei ver voce aqui no Viva50 com a gente , beijão!

    • Magda Raupp

      É verdade Paulo, sei qual é o site…aquele que durante a Copa vendeu a poltrona com o Maradona…O Kurt Vonnegut Jr, escritor americano que fez muito sucesso nos anos 70 disse que tinhamos que examinar todos os nossos conceitos por vários ângulos e decidir o que guardar e o que jogar na lata de lixo…Abç
      .

  4. Eliana dos Santos Pires

    Muito bom. Tenho tentado viver de forma minimalista desfazendo do que não é útil. Confesso consigo quando mudo de um lugar maior para um menor, aconteceu recente. O problema são os livros. Vai que eu preciso consultar. E os autografados? Emoções e sentimentos. Bem, sem rancores.

    • MCelia

      Oi , Eliana, o desapego tambem não pode ser sofrido, o que é querido para a gente ,a gente sempre da um jeitinho de guardar em casa, não é mesmo? Que bom que gostou do Texto da Magda! Bjs e volte sempre!

    • Magda Raupp

      É, Eliana livros são difíceis da gente se livrar. Eu guardo os definitivos, os que quero reler um dia, os que me impressionaram. Os demais mando para uma biblioteca pública em um cidadezinha do rio Grande do Sul. Já rancores acho que nunca se deve guardar, nem mesmo os autografados…Bjs.

  5. Rosi

    Muito bom… eu procrastino muitas coisas e guardo outras tantas…. “para quando me aposentar”…. mas, quando chegar lá… os valores serão outros…. bjs….

    • Virginia

      Olá Rosi, acredito que a consciência e o exercício do desapego tem muito valor, um dia a gente chega lá né? Bj

    • Magda Raupp

      Verdade Rosi…quando a gente se aposentar as coisas podem ser tão diferentes que os “guardados” já não fazem mais sentido. É como a música do Lulu Santo, “…nada do que foi será…” Bjs

  6. ceice da matta

    O texto é maravilhoso , eu na parte material já pratico esse desapego a muito tempo, quando se trata de sentimentos ao ser ofendido esse empenho é maior pois as vezes o ego quer falar mais alto . Estou ansiosa para ler os outros textos da autora . Parabéns meninas do viva 50 pela escolha! Beijinhos!

    • Virginia

      Olá Ceice, obrigada, a Magda é realmente um presente para o viva50. Quanto a questão do desapego, de fato, acho que a luta maior é com o nosso próprio ego, mas só o fato de nos esforçarmos e termos consciência disso já nos ajuda muito, não é? Um ótimo final de semana para você

    • Magda Raupp

      Obrigado Ceice pelo “maravilhoso” a gente tenta passar um idéia, um pensamento e é bom saber que as vezes se consegue. Desapegar-se daquilo que não tem mais função na nossa vida só nos beneficia. Bjs

  7. ANA DAVI

    oi Magda
    Parabéns, adoreia iniciativa e a cronica!
    E a foto está show!!!!
    big kiss
    Ana

    • Magda Raupp

      Bom Ana, a foto é de profissional, então sabe como é…a gente acaba ficando melhor do que é…Bjs

  8. Carmelita Benozatti

    Depois de ler a crônica da Magda Raupp, deu vontade de jogar fora todos os bibelôs e lembrancinhas desnecessárias espalhadas pela estante da sala. Mas, mais importante que isso, ficou o conselho de somente guardar a lembrança das coisas boas dessa vida tāo curta. Parabéns ao Viva50 pela nova colunista.

    • Magda Raupp

      Pois é Carmelita, certas coisas tem história mas se livrar delas não significa que a história delas se perca. Até hoje tenho na memória o cheiro de New York que conheci quando fui lá pela primeira vez com 17 anos…um cheiro de urbanidade, de cidade grande, de metrópole…basta eu sentir aquele cheiro e tudo que aconteceu em New York naquela viagem se derrama como uma torrente de sensações…Bjs

  9. Maria Elcira Amarante

    Belo texto.Estou tentando desapegar de várias coisas, mas é complicadoBjs

    • Magda Raupp

      Maria Elcira, traduzo livremente um trecho do livro de Doris Lessin, “O Carnet Dourado”.

      “…Ana sabia que tinha que atravessar o dserto. Do outro lado ela podia ver as montanhas azuis de extraordinária beleza, montanhas com as quais sonhave todas as noites. Mas ela sabia que no deserto estaria sozinha e longe de fontes de água. Ana compreendeu que se iria cruzar o deserto primeiro tinha que se livrar de todo o excesso de bagagem…” Bjs, M.

  10. Regina Meirelles

    Linda essa crônica que releio com gosto e com saudade. Esse mês me desapeguei de um presente deixado por minha bisavó e madrinha, sua máquina de costura Singer datada de 1913, verdadeira peça de museu, porque há muito tempo não costuro e dei a quem precisa. Me senti bem . Quanto ás mágoas e ressentimentos, esses já foram embora para sempre!!! Como ficamos mais leve!!! Beijos e parabéns querida amiga!

    • Magda Raupp

      Regina, seu desapego às coisas ruins como mágoas e ressentimentos sempre foi exemplo para mim…Bjs

  11. Vera Medeiros

    Oi Magda! Que crônica saborosa! Gostei do texto e dos conselhos, acho mesmo que preciso seguí-los quanto à minha casa. Muito bom saber de você! Beijos, Vera

    • Magda Raupp

      Vera, que bom receber um e-mail de você! Faz tempo…Vindo de uma editora o o “gostei do texto” me dá confiança. Mas ainda me lembro de todos aqueles sneakers maravilhosos para todos os esportes enfileirados debaixo da pia do banheiro…Onde foram parar? Bjs

  12. carla sottovia

    OI Magda,

    Adorei a cornica… e nao e verdade…eu sou uma que gosto de guardar as coisinhas de via gem mas ate que tent limpar o meu closet uma vez por ano. Se nao tiver nenhum “takers” nas sua colecao de cha, aceito!
    bus

    • Magda Raupp

      Oi Carla,

      O famoso “aparelho de chá” da minha avó acabou indo para a casa do Rodrigo…Quando você vier ao Rio avise e fazemos um chá para você! Bjs Magda

  13. vera schultze

    Estava com saudade desses textos, onde se lê com a sensação de estar dentro deles…
    Bjs, Mag!

    Vera

    • Magda Raupp

      Oi Vera,
      Quando se escreve é isso que queremos…que o leitor se conecte com o que a gente escreve. Aqui vamos estar todas as quartas-feiras! Bjs, Magda

  14. dione

    Encerrar ciclos….libertar-se de antigas crenças e atitudes, dar espaço para o novo!!!!Adorei sua crônica….parabéns!!!!Sucesso…bjs,Dione

    • Magda Raupp

      Dione, nós que somos Gêmeos temos os braços sempre abertos para as coisas novas e sabemos encerrar ciclos como ninguém. Estarei no Viva 50 todas as quartas feiras.
      Bjs, Magda

  15. Júlia Albuquerque Vieira

    Meninas do Viva 50,

    Sigo-vos pelo blogue e lá no face, adorei quando vos descobri, sempre pensei a falta que fazia um sitio de mulheres maduras (+- ah ah) pois gostava de um blogue e logo que via a idade da blogueira nunca tinha mais de 30/35, claro que gosto de ler o que a moçada (por x mais velhas do que nós) escreve e sobre que assuntos se debruçam , aliás na vida tenho amigas dos 30 aos 60 +++. Parabéns pela forma umas vezes mais suave outras mais acutilante com que nos brindam, vida, saúde e muito amor para as duas.
    Quanto ao post de hoje meninas estava a lê-lo e a cada frase pensava … mas esta sou eu … e sou. Obrigada à Magda Raupp pelo excelente texto. Com a vossa licença e os devidos créditos vou coloca-lo lá no face para que outras meninas de +++ de 50 o vejam e se inspirem.
    Há pouco no vosso face vi que muitas amigas a quem tinha enviado o convite para vos seguirem estão lá fiquei feliz, por vocês, por mim e especialmente por elas, que de certeza vão amar como.
    Para as duas e todo o vosso staff mais uma vez parabéns.
    SEJAM FELIZES.
    Beijos daqui de Lisboa
    Júlia Albuquerque Vieira

    • Virginia

      Querida Júlia, as suas palavras nos deixaram muito felizes e agradecemos, de coração, a sua presença aqui no viva50. Aliás, o viva50 nasceu justamente pelos motivos que você citou, nós, encantadas com essa nova fase de vida, sentíamos falta de um espaço na internet que abordasse assuntos pertinentes às mulheres maduras, assim resolvemos criar o viva50, um lugar de encontro para mulheres como nós. A propósito, esse mês, o viva50 completa dois anos de vida.
      Júlia, mais uma vez agradecemos a sua participação e esperamos vê-la sempre por aqui.
      Beijos daqui de São Paulo
      Virginia Pessoa Pinheiro

      Aguarde, logo mais a Magda Raupp vai escrever para você

    • Magda Raupp

      Pois, pois, Júlia, fico feliz que você tenga gostado do texto e de receber um abraço de tão longe! Aliás, amanhã estarei em Lisboa a caminho de Moçambique onde vou trabalhar por 3 semanas. Bjs, Magda

      • Júlia Albuquerque Vieira

        Magda,
        Boa viagem e bom trabalho.
        Quanto ao “pois, pois” não se aplica a mim nem à maioria do povo português, não digo que haja quem não aplique , mas é uma minoria que fala mal e lê pouco.
        Já agora eu nasci em Angola por isso uma boa estadia na minha África.
        Beijos, Júlia

  16. Sonia Nordqvist

    Simplesmente ótimo!

  17. Silvio Bento

    Adorei a crônica, concordo que a Magda é uma mulher incrível e impossível de esquecer. Quanto ao que guardar, guardo com carinho a primeira conversa que tivemos voltando de Lisboa, um vindo do Marrocos o outro da Tunisia, a partir dai uma amizade linda, de boas conversas em Rio Pardo, Porto Alegre ou Rio de Janeiro.

  18. zaia brandão

    Soube pelo jornal que há um ano Elcira faleceu. Foi um enorme choque para mim, apesar da vida e carreiras muito diferentes ter nos separado.

    Gostei muito de sua crônica e gostaria muito de poder ter umas palavras com v sobre meus tempos de escola normal com Elcira. naquele tempo no colégio me chamavam-se Rosaly. Entretanto cresci em família como Zaia e saiu conhecida por Zaia.

    Receba um abraço muito carinhoso pela minha amiga, e se puder mande uma palavra para mim.Com o afeto da Zaia.

    • MCelia

      Querida Zaia, vou enviar seu comentário para a Magda para ela te mandar uma mensagem e assim vocês trocam palavras, ok ? Um ótimo domingo para você , bjs