O príncipe encantado: mito e realidade – por Magda Raupp

04/02/15 | postado por: Virginia Pinheiro

 

Recebi um e-mail de um leitor sugerindo que eu escrevesse sobre o Complexo de Cinderela. Gostei da ideia, pois o assunto me interessa muito. Vamos lá: em 1981, a terapeuta nova-iorquina Colette Dowling publicou “The Cinderella Complex: Women’s Hidden Fear of Independence” (O Complexo de Cinderela: mulheres e o medo de ser independente). Baseado nas conversas entre Colette e suas pacientes, o livro que examina o ambiguidade demonstrada por mulheres em relação à sua independência, provocou um tsunami da costa leste à costa oeste do Estados Unidos, foi traduzido em 24 idiomas e vendeu milhões de exemplares.

Coisas do passado, você pode dizer, as mulheres de hoje são diferentes. Engano seu. Recentemente Colette declarou que as histórias contadas por suas pacientes hoje mostram que o Complexo de Cinderela continua bem vivo em 2011. “Isso não nos deve surpreender”, ela diz, “pois é resultado de séculos de condicionamento social.” O que aflige as mulheres é o medo que ao desenvolver seus talentos e habilidades e obter sucesso profissional elas serão consideradas menos femininas, acabarão sozinhas, mal-amadas e sem ninguém que “cuide” delas.

Há milhares de mulheres que foram educadas de uma maneira que as impediu de aceitar a realidade da vida adulta: cada um de nós é responsável por sua própria vida. Diga isso em uma roda de conversa e ninguém vai discordar. Mas, dentro de nós, será mesmo que queremos aceitar essa responsabilidade? Tudo que nos rodeava na infância e na adolescência nos levou a crer que um dia encontraríamos um homem maravilhoso e que seríamos protegidas, sustentadas e amadas até o fim de nossas vidas. Esse é o conto de fadas com o qual fomos alimentadas desde de que nos entendemos como gente. Mas fomos vivendo e descobrindo a mentira dessa promessa.

Após os anos 70, como resultado do movimento de liberação feminina, as mulheres começaram a aprender que seus sonhos adolescentes do Príncipe Encantado que veio “salvar” Cinderela de uma vida sem encanto, ou acordar a Branca de Neve de um sono sem sonhos, eram ridículos e fora da realidade; que havia coisas melhores para fazer, tais como estudar, ter uma ocupação ou profissão, ganhar dinheiro e poder. A liberdade, nos disseram, é um objetivo de vida.

Mas convenhamos que a liberdade é assustadora porque põe diante de nós uma gama de possibilidades e de escolhas. E será que estamos preparadas para escolher e decidir? Para funcionar no limite máximo de nossa capacidade? Ser competente implica em assumir responsabilidades, ser promovida a cargos de chefia, aceitar responsabilidades. Implica em viajar a trabalho sozinha. A liberdade exige que a gente cresça e pare de continuar escondida atrás de outros que percebemos como mais fortes; exige que nossas decisões sejam tomadas de acordo com nosso próprios valores — não os do pai ou do marido ou do namorado. A liberdade exige que a gente seja autêntica e sincera conosco mesmo e não mais definidas pelo que somos em relação aos outros — boa filha, a esposa dedicada, a mãe exemplar, a avó sempre disposta cuidar dos netos…

Quando iniciamos o processo de separação das figuras de autoridade que dominaram nossas vidas enquanto crescemos, percebemos que não temos convicções firmes ou valores próprios, que nossas crenças foram tomadas de empréstimo das pessoas poderosas do nosso passado. Mas um dia chega o momento de decidir quais são os nosso valores, crenças e convicções. Compreender que precisamos ter ideias próprias dá medo mas é o início da verdadeira liberdade. E então, por que hesitamos em cruzar a linha?

Em primeiro lugar, não se ensinou às mulheres confrontar o medo e ir além dele. Desde muito jovens fomos encorajadas a evitar o que nos dá medo e a escolher sempre o que ficava dentro do nosso nível de conforto, a ser conciliatória, a ser compreensiva, a fugir do confronto. Olhe bem para dentro de você e examine se você foi educada para ser independente, tomar conta de você mesma, enfrentar situações de risco, dizer não sem precisar se desculpar. Se a resposta é sim, você teve sorte!

De maneira geral, não recebemos treinamento para a liberdade mas para o oposto — a dependência. Até certo ponto, dependência é uma coisa normal do ser humano, mulheres ou homens. Mas muitas mulheres tornaram-se dependentes de uma maneira que atualmente consideramos pouco saudável. Já os homens, desde o dia em que nascem, são educados para a independência, para enfrentar situações de risco, para defender seus pontos de vista, não fugir do confronto. Para eles não foi prometida uma princesa encantada; foram educados para “salvar” não para serem “salvos”. Isso explica muitas coisas, não?

 

8 Comentários:O príncipe encantado: mito e realidade – por Magda Raupp
  1. Marisa

    Oi meninas, por favor corrijam o título ‘realidade’.
    bjs,
    Marisa

    • Virginia

      Obrigada Marisa, o erro já foi corrigido. Bj

  2. ana maria

    Isso tudo é a pura verdade! E mesmo nessa fase, 50 anos, com mais liberdade , ainda estamos a disposição , mesmo que inconsciente, dos filhos, marido, pais. Muitas vezes não nos colocamos em primeiro lugar.
    Belo texto pra refletir e entrar em ação!!!!!

    • Magda Raupp

      É isso ai, Ana Maria, o importante é estabelecer os limites. Cuidar das pessoas queridas é uma responsabilidade que é parte de ser humano–para mulheres ou homens. Mas fazer desse “cuidar” o seu projeto de vida é muito limitante. Bjs, Magda

  3. Maria Lucia

    A discussão sobre as condições femininas na sociedade já não é tão recente. Mas infelizmente creio, principalmente nas sociedades latinos americanas, a mulher em busca de seus “direitos” acaba sendo extremamente pressionada. A carreira profissional ao menos para a classe média tem sido um desafio. O mundo do trabalho cobra, espera e a vida doméstica e familiar muitas vezes se fragiliza. Ainda não há uma estrutura social que sustente um equilíbrio entre a vida profissional e familiar. Fico aqui a pensar: a própria natureza humana nos faz investir um tempo longo para ter os filhos e no mínimo amamenta los. Então um projeto existencial faz bem para homens e mulheres. Saber o que gosta, para onde vai, e não ter um projeto sustentado por filhos e maridos. Mas creio que nós mulheres temos de encarar as diferenças. Ser independente não necessariamente significa ter uma carreira de sucesso igualmente aos homens. Há momentos de muita produtividade e há momentos , principalmentes e há um projeto familiar, menos produtivos. Cada vez mais acho que transitar com leveza pelas inúmeras possibilidades da vida é um caminho mais livre. Morro de medo das feministas e das mulheres totalmente dependentes. Admiro as que buscam ser flexíveis a ponto de saber o momento certo de estar no mundo do trabalho ( as vezes não é nem opção, dependendo da classe social), e o momento certo de estar mais com os filhos. Portanto o complexo de cinderela se refere a uma condição psicológica de imaturidade emocional feminina. Não podemos confundir esse processo com independência econômica ou ter carreira profissional, o buraco é muito mais embaixo!

    • MCelia

      Ola, Maria Lucia, é bem isso mesmo que voce falou, um meio termo entre uma mulher que trabalha fora em jornada pesada e a que fica em casa só cuidando dos filhos…isso é o ideal. E tenho vendo algumas mulheres conseguindo isso, é bem legal poder tocar sua vida profissional e ser uma mãe presente para os seus filhos. Realmente não é uma questão facil, mas a mulher com certeza esta sempre procurando uma vida melhor para ela e sua familia. Obrigada por estar aqui com a gente! bjs

  4. Regina

    Li os textos aqui postados hoje. Me ajudando muito. Momento de incerteza sobre quem sou, o que quero. Abraço.

    • MCelia

      Os textos da Magda são bem legais, não é mesmo? Curta seu momento e comece a se conhece melhor, beijos.